Como se preparar para uma cirurgia facial
A preparação para uma cirurgia facial começa muito antes da véspera. Ela reúne decisões clínicas, ajustes de hábitos e organização da rotina, com um objetivo: controlar, antes do procedimento, os riscos que podem ser controlados. As orientações a seguir são gerais; em cada caso, prevalece a orientação individual da equipe responsável.
Tudo começa na consulta e no planejamento
Antes de qualquer preparo, é preciso definir se existe indicação cirúrgica. Na consulta, o médico ouve o que motiva a procura, levanta o histórico de saúde e examina a face para entender quais estruturas estão envolvidas: pele, gordura, músculos e ligamentos. A avaliação pode concluir que a cirurgia não é o caminho, ou que é preciso aguardar.
Quando há indicação, o planejamento define a técnica, o tipo de anestesia, o local e os cuidados do pré e do pós-operatório. As etapas da consulta estão descritas em como funciona a consulta de avaliação, e as técnicas, na página de procedimentos.
O que o médico precisa saber
Informações completas são parte da segurança. Algumas parecem pouco importantes, mas interferem diretamente na conduta:
- doenças atuais e passadas, inclusive as que estão controladas;
- medicamentos em uso, com e sem prescrição, além de vitaminas, suplementos, chás e fitoterápicos;
- alergias e intercorrências anteriores com anestesia, na própria pessoa ou em familiares;
- procedimentos prévios na face, como preenchimentos, toxina botulínica ou fios;
- histórico de sangramento excessivo, trombose ou cicatrização desfavorável;
- tabagismo, uso de nicotina em qualquer forma e consumo de álcool.
Exames e avaliação anestésica
Os exames pré-operatórios são solicitados de acordo com o histórico de saúde e com o procedimento planejado. Podem incluir exames de sangue, avaliação cardiológica ou a opinião de outro especialista; em cirurgias das pálpebras, pode ser solicitada avaliação oftalmológica.
Quando a cirurgia envolve sedação ou anestesia geral, a avaliação pré-anestésica é conduzida por médico anestesiologista, que revisa histórico, exames e medicamentos e define o plano anestésico. Em cirurgias programadas, essa avaliação é recomendada com antecedência, para que ajustes possam ser feitos a tempo. Um exame alterado nem sempre descarta a cirurgia: muitas vezes indica a necessidade de tratar ou estabilizar uma condição antes de seguir.
Medicamentos e suplementos que interferem na coagulação
Alguns medicamentos e suplementos aumentam a tendência a sangramento e, com isso, o risco de hematoma, uma das complicações que mais exigem atenção em cirurgias da face. Entre os que costumam ser revistos estão:
- ácido acetilsalicílico e anti-inflamatórios;
- anticoagulantes e antiagregantes plaquetários;
- suplementos como ômega-3, vitamina E, ginkgo biloba, ginseng, alho e gengibre em cápsulas.
Outros pedem atenção por motivos diferentes. Anticoncepcionais e terapias hormonais podem influenciar o risco de trombose, e alguns remédios usados no controle do peso e do diabetes tornam mais lento o esvaziamento do estômago, o que exige orientação específica antes da anestesia.
A regra mais importante é simples: nenhum medicamento deve ser suspenso por conta própria. Parte deles trata condições que não podem ficar sem controle, e a interrupção pode trazer riscos maiores do que os da própria cirurgia. A decisão de suspender, manter ou substituir cada item cabe ao cirurgião e ao anestesiologista, com o médico que o prescreveu quando necessário. Nenhum suplemento ou remédio novo, inclusive analgésicos comuns, deve ser iniciado sem orientação.
Tabagismo e nicotina
A nicotina contrai os vasos sanguíneos, e o monóxido de carbono da fumaça reduz a oferta de oxigênio aos tecidos. Como muitas cirurgias faciais descolam e reposicionam tecidos que dependem de boa circulação para cicatrizar, o tabagismo aumenta o risco de necrose de pele, infecção e cicatrização desfavorável, além de complicações respiratórias relacionadas à anestesia.
A orientação vale para todas as formas de consumo, como cigarro comum ou eletrônico, tabaco aquecido, narguilé e charuto. Adesivos e gomas de reposição de nicotina também precisam ser discutidos com o médico. O período de interrupção antes da cirurgia e durante a recuperação é definido caso a caso. Em algumas situações, a conduta adequada é adiar a cirurgia até que a interrupção seja possível.
Álcool
O álcool interfere na coagulação, pode interagir com anestésicos e com medicamentos e favorece a desidratação e o inchaço. Por isso, costuma ser orientada a suspensão do consumo antes da cirurgia e durante a recuperação, por período definido pelo médico. O consumo regular deve ser informado com franqueza, porque também influencia o planejamento anestésico.
Controle de doenças crônicas
Doenças crônicas nem sempre impedem uma cirurgia facial, mas precisam estar controladas. Alguns exemplos mostram por quê:
- Hipertensão arterial: elevações da pressão estão associadas a sangramento e hematoma no pós-operatório.
- Diabetes: a glicemia fora de controle prejudica a cicatrização e aumenta o risco de infecção.
- Doenças cardíacas, pulmonares e da tireoide: influenciam a escolha e a condução da anestesia.
- Apneia do sono: exige cuidados específicos com a sedação e a analgesia.
- Distúrbios de coagulação e doenças autoimunes: podem alterar o sangramento e a cicatrização.
O cirurgião pode solicitar relatório ou liberação do médico que acompanha essas condições. Quando uma delas não está estável, a recomendação costuma ser tratá-la primeiro e reavaliar a cirurgia depois.
Organização da rotina e rede de apoio
A recuperação acontece em etapas, com ritmo que varia de pessoa para pessoa. Por isso, a organização prática deve prever alguma folga, sem datas rígidas:
- Acompanhante: após sedação ou anestesia geral, a saída do local da cirurgia deve ser feita com um adulto responsável, e não é seguro dirigir. Nos primeiros dias, ter alguém por perto ajuda nas tarefas de casa e nos deslocamentos.
- Trabalho e compromissos: o afastamento é combinado com o médico, conforme o procedimento e a evolução. Viagens e eventos importantes marcados para logo depois da cirurgia tendem a gerar pressão desnecessária.
- Casa: travesseiros para manter a cabeceira elevada, alimentos fáceis de mastigar e os medicamentos prescritos já disponíveis.
- Cuidado com outras pessoas: quem cuida de crianças, familiares ou animais precisa de ajuda nesse período, já que esforço físico e carregar peso costumam ser restritos no início.
- Retornos: convém organizar de antemão o transporte para as consultas de revisão.
Dúvidas para levar à consulta
Anotar as perguntas com antecedência ajuda a não esquecer pontos importantes. Por exemplo:
- Qual técnica foi indicada e por quê?
- Quais são as alternativas, inclusive a de não operar?
- Quais riscos e complicações são possíveis nesse procedimento?
- Onde a cirurgia será realizada e que tipo de anestesia está previsto?
- Quais medicamentos devem ser mantidos, ajustados ou suspensos?
- Como são os primeiros dias, os retornos e o contato com a equipe em caso de intercorrência?
- Como são conduzidos eventuais complementos ou novas intervenções?
Termo de consentimento
O termo de consentimento livre e esclarecido registra por escrito o que foi discutido: o procedimento proposto, as alternativas, os riscos, as complicações possíveis e os cuidados necessários. Pode haver um termo específico para a anestesia.
O termo não é uma formalidade nem substitui a conversa com o médico; ele documenta essa conversa. A leitura deve ser feita com calma, antes do dia da cirurgia, e qualquer dúvida precisa ser esclarecida antes da assinatura. A decisão pertence à pessoa que será operada, que pode desistir antes da realização do procedimento.
Jejum e orientações para o dia da cirurgia
O jejum reduz o risco de aspiração de conteúdo do estômago durante a anestesia. O tempo de jejum para alimentos e para líquidos é definido pela equipe anestésica e deve ser seguido exatamente como orientado: encurtá-lo aumenta o risco, e prolongá-lo além do necessário pode causar desidratação e mal-estar. A orientação também indica quais medicamentos de uso contínuo devem ser tomados no dia.
Outras orientações comuns para o dia da cirurgia:
- banho e lavagem dos cabelos conforme a instrução recebida, sem cremes ou maquiagem no rosto;
- retirada de joias, piercings e lentes de contato;
- roupas confortáveis, que abram na frente;
- documentos, exames e a lista atualizada de medicamentos em mãos.
Febre, gripe, herpes labial, lesões de pele na região a ser operada ou qualquer outra alteração de saúde nos dias anteriores devem ser comunicadas à equipe. Nessas situações, adiar pode ser a conduta mais segura.
Uma preparação compartilhada
A preparação depende de informação clara da equipe e da participação ativa de quem será operado: seguir as orientações, relatar tudo o que pode interferir e perguntar sempre que houver dúvida. O que acontece depois do procedimento é tema de outros artigos educativos do site.
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui consulta médica presencial.