O que avaliar antes de escolher um cirurgião
Decidir por uma cirurgia facial envolve também decidir quem vai conduzi-la. Recomendações de conhecidos e a comunicação de um profissional costumam pesar nessa escolha, mas não substituem critérios verificáveis. Este texto reúne esses critérios, sem comparar nem indicar profissionais.
Registro profissional: CRM e RQE
Como consultar
O registro dos médicos brasileiros pode ser consultado no portal de busca de médicos do Conselho Federal de Medicina. A pesquisa pode ser feita pelo nome, pelo estado ou pelo número de inscrição, e o resultado permite verificar a situação da inscrição e as especialidades e áreas de atuação registradas, com o número de RQE correspondente.
Vale conferir se os dados informados pelo profissional correspondem aos do portal e se a inscrição está ativa no estado onde ele atua.
O que o CRM indica
O CRM é a inscrição no Conselho Regional de Medicina, necessária para exercer a medicina no estado. Ele confirma que a pessoa é médica e está habilitada a atuar, mas não informa, por si só, qual é a especialidade.
O que o RQE registra
O RQE, Registro de Qualificação de Especialista, é o número atribuído pelo Conselho Regional quando o médico registra um título de especialista ou de área de atuação. Esse título é obtido por residência médica credenciada pela Comissão Nacional de Residência Médica ou por título de especialista concedido pela Associação Médica Brasileira, por meio da sociedade da especialidade.
Pelas normas de publicidade do Conselho Federal de Medicina, é considerado especialista quem apresenta RQE, e a especialidade divulgada deve vir acompanhada desse número. Cursos de pós-graduação não equivalem a título de especialista: quando divulgados por médico sem RQE, precisam ser acompanhados da expressão “não especialista”.
O RQE registra a especialidade, mas não descreve a experiência com um procedimento específico. Denominações usadas para indicar o foco da atuação não substituem essa verificação: a especialidade registrada é a vinculada ao RQE. Na consulta, é legítimo perguntar qual formação embasa a realização do procedimento em questão.
Clareza da consulta
A consulta é o momento em que o critério clínico se torna visível. Alguns pontos ajudam a avaliá-la:
- se a avaliação é feita pelo cirurgião que conduzirá o procedimento;
- se a conversa começa pela queixa, descrita nas palavras de quem busca a avaliação;
- se há exame físico da região envolvida e das áreas relacionadas a ela;
- se o que foi identificado e a conduta proposta são explicados em linguagem compreensível, com espaço para perguntas;
- se há tempo para pensar, sem pressão para decidir ao final do encontro.
Discussão de riscos e alternativas
Toda cirurgia tem riscos. Uma consulta bem conduzida diferencia os efeitos esperados da recuperação, como inchaço, hematomas e alteração temporária da sensibilidade, das complicações possíveis. Conforme o procedimento, essas complicações incluem hematoma que precisa ser drenado, infecção, lesão de nervos, sofrimento ou necrose de pele, cicatrização desfavorável, assimetria, complicações relacionadas à anestesia e necessidade de nova cirurgia. A conversa também deve esclarecer o que seria feito caso alguma delas ocorresse.
As alternativas fazem parte da mesma discussão: outras técnicas cirúrgicas, procedimentos não cirúrgicos, intervenções menores e a possibilidade de não fazer nada naquele momento. Entender por que uma opção foi preferida a outra é tão importante quanto conhecer a opção escolhida.
Merecem atenção a minimização dos riscos, a descrição de uma cirurgia como simples ou isenta de riscos e a ausência de qualquer menção a alternativas.
Quando a resposta é que não há indicação
Nem toda consulta termina com uma indicação cirúrgica, e isso é um dado a favor do processo. Condições de saúde que precisam de controle, tabagismo, variações de peso em curso ou uma expectativa incompatível com o que o procedimento pode oferecer são razões clínicas para adiar ou para não operar.
Um profissional que diz com clareza que não há indicação, que não é o momento ou que a queixa pode ser abordada de outra forma está demonstrando critério. Quando toda queixa resulta em indicação de cirurgia, ou quando procedimentos são somados sem relação clara com o que o exame encontrou, vale perguntar o motivo de cada um.
Termo de consentimento
O termo de consentimento livre e esclarecido registra que a pessoa recebeu informações sobre o procedimento, seus riscos, alternativas e cuidados, e que concorda em realizá-lo. O Código de Ética Médica estabelece que o médico deve obter esse consentimento depois de esclarecer o paciente sobre o procedimento a ser realizado.
Alguns cuidados ajudam:
- receber o documento com antecedência, e não apenas no dia da cirurgia;
- ler com calma e esclarecer cada ponto que não tenha ficado claro;
- verificar se os riscos descritos correspondem aos que foram discutidos na consulta;
- guardar uma cópia.
O termo não substitui a conversa: ele formaliza o que já deveria ter sido explicado.
Onde a cirurgia será realizada
O local e a estrutura de suporte fazem parte da segurança do procedimento. Algumas perguntas objetivas:
- A cirurgia será feita em hospital ou em clínica com ambiente cirúrgico?
- O estabelecimento tem registro no Conselho Regional de Medicina e as licenças sanitárias exigidas para esse tipo de procedimento?
- Qual tipo de anestesia está previsto para o caso e quem será o responsável por ela?
- Como é feita a monitorização durante a cirurgia e na recuperação imediata?
- Qual é o plano em caso de intercorrência, incluindo a retaguarda hospitalar, se for necessária?
- Há estrutura para permanência após a cirurgia, quando o caso exigir?
- Quais exames e avaliações clínicas serão pedidos antes da cirurgia?
Acompanhamento pós-operatório
A cirurgia não termina quando o procedimento acaba. Antes de decidir, vale entender:
- quem faz o acompanhamento depois da cirurgia e como são marcados os retornos;
- como entrar em contato em caso de dúvida ou de intercorrência, inclusive fora do horário de atendimento;
- quais orientações serão entregues por escrito;
- como é discutida a eventual necessidade de complemento ou de nova intervenção.
Ter essas respostas antes da cirurgia reduz incertezas durante a recuperação, que acontece em etapas e com ritmo que varia de pessoa para pessoa.
Cautela com promessas e apelos comerciais
A publicidade médica no Brasil é regulada pelo Conselho Federal de Medicina. A Resolução CFM 2.336/2023 veda ao médico prometer ou insinuar bons resultados e considera sensacionalismo o uso abusivo, enganoso ou sedutor de representações visuais e informações que induzam à percepção de que o resultado está assegurado. Alguns sinais pedem cautela:
- Promessas de resultado, explícitas ou sugeridas por frases que descrevem como a aparência ficará depois da cirurgia.
- Prazos garantidos, como tempos fixos de recuperação apresentados como válidos para qualquer pessoa.
- Preços promocionais e ofertas por tempo limitado. Uma cirurgia depende de avaliação individual, e condições comerciais que estimulam decidir com pressa deslocam a escolha do critério clínico para o preço. As normas do CFM vedam vincular abatimentos a vendas casadas e premiações.
- Antes e depois usados como argumento de venda. Pelas normas do CFM, a demonstração de antes e depois deve vir acompanhada de texto educativo e ser apresentada em um conjunto de imagens com indicações, evoluções satisfatórias e insatisfatórias e complicações, sem identificar o paciente e sem edição das imagens. Uma seleção de casos feita para convencer não informa o que pode acontecer em outra anatomia.
- Pressão para decidir, seja por prazo, por disponibilidade de agenda ou por insistência no contato.
- Autopromoção e comparação, como títulos de superioridade ou referências depreciativas a outros profissionais.
Um roteiro de perguntas para a consulta
Levar as perguntas por escrito ajuda a não esquecer pontos importantes:
- Qual é a especialidade registrada e qual formação embasa a realização deste procedimento?
- O que o exame identificou e por que este procedimento foi indicado?
- Quais alternativas existem, inclusive a de não operar?
- Quais são os efeitos esperados da recuperação e as complicações possíveis, e como seriam conduzidas?
- Como funciona o acompanhamento depois da cirurgia e como entrar em contato em caso de intercorrência?
Buscar uma segunda opinião antes de decidir é uma prática legítima, e a forma como a possibilidade é recebida também diz algo sobre a condução do processo. Dúvidas gerais sobre consulta e cirurgia estão reunidas na página de perguntas frequentes.
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui consulta médica presencial.